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Deixar o rio por uns tempos e ensaiar uma longa caminhada

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.02.12

É com um filme que nos projecta num futuro próximo, possível, o que o torna verosímil, que vou sair por uns tempos deste rio e ensaiar uma longa caminhada. Aqui na margem ficam gravadas as palavras-chave e logo a seguir as ligações a outros rios. 

 

Porque é que escolhi precisamente Children of Men antes de parar aqui? Porque foi dos filmes que vi ultimamente que mais me impressionou, a nível da linguagem do cinema, imagem, ritmo, sequências, guião, personagens-actores, tudo está perfeito.

E também pelos tempos actuais, incertos, bélicos, a adivinhar trovoadas, tempestades, para não dizer guerras várias, desde a guerrilha urbana desorganizada à guerra cirúrgica mais elaborada.

 

O filme consegue envolver-nos numa atmosfera da maior insegurança vital, uma vida nada vale, pode ser eliminada pelas razões mais absurdas, irrelevantes e arbitrárias, pode ser um equívoco, ou estar no sítio errado na hora errada.

Um grupo de rebeldes é perseguido e nessa fuga apercebemo-nos que todos procuram salvar a pele, a questão das ideias e da dignidade pessoal passa para segundo plano. Para sobreviver, aprende-se a desconfiança básica, nenhum elo é seguro, não há um refúgio sequer onde descansar sossegado, nem uma quinta quase abandonada. O único elo e o único  lugar será em plena floresta onde vive um casal de velhos que já não têm muito a perder num mundo desumano e infeliz.

 

Para o nosso herói, a causa vale a pena, trata-se de garantir a segurança de um autêntico milagre: num mundo sem crianças, a possibilidade de uma nova vida leva-o a enfrentar os maiores perigos para proteger a futura mãe, a ajudá-la a ter a criança, e a levá-la a local seguro. É uma forma de recuperar a vida dentro de si próprio, do filho morto precocemente, de toda a tristeza que o habita.

 

Contado assim, o filme assemelha-se a uma história infantil: a floresta de todos os perigos, as ciladas em todos os encontros, o herói, a heroína, a fada-madrinha, o ancião protector, o lugar da chegada.

E aqui temos, paradoxalmente, a verosimilhança do guião: em se tratando de histórias preconizadas por humanos, vemos perpetuar o melhor, inteligência, sensibilidade, afectos, coragem, sentido de grupo, e o pior, destruição, violência, poder, traição, doença. Este filme revela-nos a nossa realidade de espécie decadente. Que tudo destrói até ficar rodeada de lixo, apenas lixo.

 

E no entanto, no meio do maior lixo, da doença mais destrutiva, nasce uma criança. Magnífica metáfora ou parábola: a vida surge no meio da morte, tão frágil e tão forte, o choro da criança silencia aqueles homens e mulheres, deixa-os estupefactos.

 

Como uma sacudidela saudável, este filme encosta-me à margem deste rio. Também desconheço o que me espera, todas as caminhadas são imprevisíveis, lugares, personagens... Pego na mochila leve, respiro este ar fresco, e verifico o solo firme.

 

Este rio que observo agora da margem levou-me desde a origem, a infância dos filmes antigos na televisão a preto e branco, aos canais por cabo, DVD's e youtubes. Este rio acompanhou-me em correntes ferozes e em águas tranquilas. Este rio levou-me às personagens e aos lugares amados. Voltarei a navegar nas suas águas? Talvez um dia.

 

Para já, navegadores de outros rios, podem acompanhar a minha caminhada em terra firme n' A Vida na Terra.

 

 

A cena que mais me impressionou:

 

 

 

 

 

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publicado às 18:48


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